Um estudo publicado em 30 de outubro de 2026 na revista Sexual Medicine, vinculada à Sociedade Internacional de Medicina Sexual (ISSM), investigou se a quantidade de músculo no corpo do homem tem relação com a disfunção erétil (DE). O trabalho, de pesquisadores chineses, usou dados do NHANES, um levantamento nacional de saúde dos Estados Unidos.
Como o estudo foi feito
Os pesquisadores analisaram 2.217 homens adultos entre 2001 e 2004. A massa muscular foi medida por densitometria (DXA), e os autores calcularam o Índice de Massa Muscular Esquelética Apendicular (ASMI), que é a massa magra dos braços e das pernas dividida pela altura ao quadrado. A DE foi definida por autorrelato: quem respondeu que “às vezes” ou “nunca” conseguia obter e manter ereção suficiente para a relação sexual foi classificado como tendo DE.
Principais resultados
- Menos músculo, mais DE. O grupo com DE tinha ASMI menor (8,24 contra 8,69 kg/m²) e menos massa magra nos membros (25,3 contra 27,4 kg).
- Sarcopenia. A perda de massa muscular foi quase três vezes mais frequente entre os homens com DE (16,7% contra 6,2%).
- Efeito dose-resposta. Depois do ajuste para idade, raça, escolaridade, inflamação, tabagismo, álcool e doenças como diabetes, colesterol alto e problemas cardíacos, cada aumento de uma unidade no ASMI se associou a cerca de 15% menos chance de DE (OR 0,847). Os homens do terço superior de massa muscular tiveram risco 39,4% menor que os do terço inferior (OR 0,606).
- Exercício intenso. Atividade física vigorosa se associou a cerca de 40% menos chance de DE (OR 0,604). A atividade moderada não teve associação significativa depois do ajuste completo.
- Inflamação. Marcadores inflamatórios, em especial os monócitos (células de defesa do sangue), explicaram uma parte pequena da relação: cerca de 1,8% no caso da massa muscular e 2% no do exercício vigoroso.
Por que músculo e ereção podem estar ligados?
A ereção depende de vasos sanguíneos saudáveis e da liberação de óxido nítrico pelo endotélio, a camada que reveste os vasos. O músculo esquelético participa do metabolismo da glicose e das gorduras, melhora a sensibilidade à insulina e ajuda a controlar a inflamação crônica de baixo grau, que lesa o endotélio. Os autores também lembram que o treino de força pode estimular a testosterona e melhorar o metabolismo.
Perder músculo, ganhar gordura, desenvolver resistência à insulina e manter um estado inflamatório tendem a andar juntos e a se retroalimentar. A ereção é muito sensível a esse conjunto.
O que o estudo não prova
- É um estudo transversal. Ele mostra associação, não causa e efeito. Não dá para afirmar que ganhar músculo cura ou previne a DE, nem se é a DE que leva à vida mais sedentária.
- A DE foi autorrelatada. Isso pode gerar erros de classificação. Os autores também apontam que os dados são de americanos, o que limita a extrapolação.
- A inflamação explica pouco. O papel mediador dos marcadores inflamatórios foi estatisticamente significativo, mas pequeno em termos práticos.
- A idade pesa muito. O grupo com DE era bem mais velho, em média 62,6 contra 45,8 anos, e tinha mais diabetes, doença cardíaca e colesterol alto.
Os próprios autores defendem estudos prospectivos e ensaios clínicos randomizados para saber se aumentar a massa muscular realmente reduz a incidência ou a gravidade da DE.
A conclusão do Dr. Rossol
Este estudo reforça uma mensagem que repito no consultório: a saúde sexual do homem é reflexo da saúde geral. A ereção depende de vasos saudáveis, metabolismo equilibrado e um corpo que se mantém ativo. Músculo não é só estética, é um órgão metabólico, e cuidar dele com treino de força e atividade física regular é um investimento também na função erétil.
É importante manter o equilíbrio: o estudo mostra associação, e não garante que ganhar massa muscular vá resolver um quadro de disfunção erétil. A DE tem causas variadas, e o exercício não substitui a avaliação médica. Muitas vezes a dificuldade de ereção é o primeiro sinal de problemas cardiovasculares ou metabólicos, e investigá-la pode proteger a saúde do homem como um todo.
Minha orientação é: mantenha-se ativo, inclua exercícios de força na rotina, controle peso, glicose, colesterol e pressão, e não deixe de procurar um urologista se notar mudanças na ereção. Quando a DE não responde aos tratamentos clínicos, existem soluções cirúrgicas eficazes, como o implante de prótese peniana, que devolvem ao paciente a função sexual e a confiança. Quanto antes o problema for avaliado, mais opções o paciente terá.
Dr. Alessandro Rossol, urologista, andrologia e cirurgia peniana
Referência: Wang Z, Zheng X, Wang H, Liu C, Chen M, Sun C. Inflammation factors mediate association of muscle mass and erectile dysfunction: NHANES 2001–2004. Sexual Medicine, 2026;14(6):qfag017. https://doi.org/10.1093/sexmed/qfag017