Testosterona sem indicação: novo estudo aponta risco cardiovascular maior
A testosterona deixou de ser tratada apenas como remédio para uma condição específica e virou promessa de vitalidade. No entanto, uma pesquisa com mais de 358 mil homens acende um alerta sobre o uso off-label sem deficiência hormonal comprovada.
A testosterona deixou de ser tratada apenas como remédio para uma condição específica e virou, para muitos homens, uma promessa de mais energia, mais libido e mais vitalidade.
O problema é que boa parte dessas prescrições acontece fora da indicação médica correta — o chamado uso off-label. E um estudo recém-publicado no periódico eBioMedicine, um dos maiores já feitos sobre o tema, mostra por que isso deveria acender um alerta urgente.
A seguir, veja os detalhes da pesquisa, os riscos comparados de 10 anos, a hipótese biológica e o comentário clínico do Dr. Alessandro Rossol.
Estatísticas e desfechos do estudo de longo prazo
Pesquisadores da Alemanha, Suécia e Reino Unido compararam homens com hipogonadismo confirmado versus homens que iniciaram o hormônio sem nenhuma evidência da deficiência.
Prontuários analisados
Homens entre 30 e 75 anos de 123 organizações globais de saúde que iniciaram terapia com testosterona.
Prescrições off-label
Mais de um terço dos homens não tinha qualquer evidência registrada de hipogonadismo antes de iniciar.
Risco cardiovascular maior
Aumento no risco de eventos graves (infarto, AVC, parada cardíaca) em 10 anos no grupo sem indicação.
Risco de mortalidade geral
Homens tratados sem indicação tiveram quase o dobro do risco de morte por qualquer causa.
Desfechos clínicos e a hipótese biológica
Para responder com rigor, os autores separaram os homens em dois grupos e fizeram um pareamento cuidadoso comparando pessoas com perfis semelhantes. Após o pareamento, foram acompanhados 113.554 pares de pacientes por até 10 anos.
Ao longo de 10 anos, em números absolutos, os eventos cardiovasculares graves ocorreram em 16,5% dos homens sem indicação, contra 11,8% dos que tinham hipogonadismo confirmado. Os riscos aumentados apareceram em vários desfechos específicos, incluindo AVC isquêmico, parada cardíaca e insuficiência cardíaca.
Hipótese Biológica: Quando se acrescenta testosterona a um organismo que já mantém níveis fisiológicos normais do hormônio, pode-se desequilibrar mecanismos vasculares e metabólicos que o corpo já regulava sozinho de forma saudável.
Principais conclusões da pesquisa
O contexto da prescrição importa muito. O problema não é a molécula da testosterona em si, e sim usá-la em quem não precisa dela.
Kerniss H, Curman P, Olbrich H, et al. Off-label testosterone therapy is associated with higher long-term cardiovascular risk in men. eBioMedicine. 2026;130:106373. doi:10.1016/j.ebiom.2026.106373.
Colocando os resultados em contexto médico
É importante ler esses resultados com equilíbrio científico e sem alarmismo desnecessário.
Trata-se de um estudo observacional, e não de um ensaio clínico randomizado — ou seja, ele mostra uma associação forte, mas não prova relação de causa e efeito de forma definitiva. Vale lembrar também que o ensaio TRAVERSE, publicado no prestigiado New England Journal of Medicine, havia demonstrado segurança cardiovascular da reposição em homens com hipogonadismo confirmado.
Os dois achados não se contradizem: eles convergem exatamente para a mesma mensagem. A reposição de testosterona é um tratamento médico sério, com indicações bem definidas, que deve começar após uma avaliação clínica adequada e a confirmação laboratorial da deficiência — e não a partir de um desejo genérico de “melhorar a forma” ou atalho para vitalidade.
Se você apresenta sintomas como queda de libido, cansaço excessivo, alterações de humor ou diminuição de desempenho, o caminho correto é passar por investigação médica com exames laboratoriais e acompanhamento especializado em Andrologia, evitando a automedicação e prescrições sem critério.
Dr. Rossol fala sobre reposição de testosterona e segurança masculina
No vídeo abaixo, o Dr. Rossol detalha os critérios de indicação para o uso consciente de hormônios.
A avaliação hormonal exige critério e segurança científica.
Quando bem indicada, a reposição hormonal é segura e transforma a qualidade de vida. Agende sua consulta para investigarmos se há de fato indicação de tratamento no seu caso.
Dúvidas frequentes sobre o uso de testosterona
Qual é o principal risco da reposição de testosterona sem indicação clínica?
Segundo o novo estudo publicado no eBioMedicine com mais de 358 mil homens, o uso de testosterona sem evidência prévia de hipogonadismo foi associado a um aumento de 51% no risco de eventos cardiovasculares graves (como infarto, AVC e parada cardíaca) e a quase o dobro do risco de mortalidade geral ao longo de 10 anos.
Isso significa que a reposição de testosterona é perigosa para todo mundo?
Não. O problema não é a molécula de testosterona em si, mas usá-la em quem não precisa dela. Em homens com hipogonadismo confirmado (deficiência real comprovada por exames e sintomas), estudos rigorosos como o ensaio TRAVERSE (NEJM) demonstram a segurança cardiovascular da reposição bem indicada.
O que acontece ao tomar testosterona tendo níveis hormonais normais?
A hipótese biológica aponta que acrescentar testosterona exógena a um organismo que já mantém níveis fisiológicos normais desequilibra os mecanismos naturais de autorregulação do corpo, podendo elevar o hematócrito, alterar a pressão e sobrecarregar o sistema cardiovascular.
Como saber se realmente preciso de reposição de testosterona?
A indicação exige uma avaliação médica minuciosa aliada à confirmação laboratorial de testosterona baixa em mais de uma dosagem matinal. Sintomas isolados como cansaço ou queda de libido possuem diversas outras causas e não devem ser tratados com automedicação ou prescrições off-label sem critério.
Quer investigar sua saúde hormonal com segurança?
A consulta presencial permite analisar seus sintomas, solicitar exames específicos de sangue e avaliar o funcionamento hormonal global com rigor ético e científico.