A doença de Peyronie (DP) atinge até 18% dos homens — um número bem maior do que a maioria imagina. Ela ocorre quando se forma uma placa de fibrose na túnica albugínea, a “capa” que envolve os corpos cavernosos do pênis. Essa placa, geralmente causada por microtraumas durante relações sexuais, traumas maiores no pênis, cirurgias urológicas ou outras situações, faz o pênis curvar ou deformar durante a ereção.
Trago aqui um resumo das diretrizes da AUA (American Urological Association) e da CUA (Canadian Urological Association), que orientam o tratamento da doença conforme o grau de curvatura, a presença de disfunção erétil e a fase da doença.
Fase aguda x fase crônica: por que isso importa
Um ponto central: não existe tratamento padrão recomendado para a fase aguda (quando a placa ainda está se formando) — embora pesquisas recentes venham investigando opções para essa fase. Praticamente todos os tratamentos estabelecidos são indicados para a fase crônica, quando a placa já endureceu e estabilizou.
Isso explica por que “esperar para ver” costuma ser parte da conduta inicial por muitos urologistas — e por que buscar avaliação especializada cedo é importante para acompanhar essa evolução.
O que pode ser feito
FASE INICIAL
Medicações orais Anti-inflamatórios para dor na fase aguda, e inibidores de PDE5 (mesma classe usada para disfunção erétil) quando há DE associada.
Injeções intralesionais de colagenase Aplicadas diretamente na área de maior fibrose, combinadas com modelagem manual pelo médico e em casa. Indicadas para curvatura entre 30° e 90°, boa função erétil, doença estabilizada e ausência de calcificação na placa. Este tratamento não está disponível no Brasil.
Injeções intralesionais de verapamil Consideradas padrão de cuidado em muitos serviços, com recomendação condicional pelas duas associações — os estudos mostram resultados variáveis, sobre melhora de curvatura e dor.
Ondas de choque — recomendada na fase inicial para controle da dor peniana, desaceleração na progressão da placa e melhora da função erétil.
Tração peniana Recomendação de grau C pela CUA, incluída como opção razoável pela AUA. Funciona melhor quando iniciada precocemente e combinada com outros métodos — estudos mostram melhora média de curvatura de cerca de 33%, além de ganhos relatados em comprimento peniano e relação sexual bem-sucedida. Exige comprometimento real do paciente com o uso contínuo.
FASE TARDIA
Plicatura peniana (cirúrgica) Melhor indicada para pacientes com boa função erétil, rigidez pré-operatória sem medicação, curvatura simples entre 30° e 60°, sem deformidades significativas.
Incisão ou excisão de placa com enxerto Indicada para função erétil normal (com ou sem medicação), curvatura complexa abaixo de 60°, placas grandes, pênis mais curto e outras deformidades associadas.
Implante de prótese peniana Recomendado quando há disfunção erétil significativa associada — pode ser combinado com modelagem manual, plicatura ou incisão/enxerto no mesmo procedimento. Um ponto importante da diretriz: cabe ao médico conversar com o paciente sobre a expectativa — um pênis completamente reto ou uma correção funcional de até 20° residual, que costuma ser aceitável e tende a melhorar com o uso repetido do dispositivo.
O que deve ser evitado (ou usado apenas experimentalmente)
- Vitamina E, tamoxifeno, procarbazina, ômega-3 ou combinação de vitamina E com L-carnitina por via oral — o tamoxifeno vem sendo estudado para a fase aguda, mas ainda sem evidência forte
- Gel de verapamil ou eletroterapia — não recomendados por nenhuma das duas associações
- Radioterapia — não deve ser usada em nenhum caso
- Plasma rico em plaquetas (PRP) — não recomendado por falta de dados robustos, embora pesquisas mais recentes mostrem potencial experimental
O que levar para casa
- A doença de Peyronie é mais prevalente do que se imagina e causa disfunção sexual e dor significativas
- A escolha do tratamento deve ser um processo compartilhado entre médico e paciente, considerando grau de curvatura, progressão da doença e presença de disfunção erétil
- A pesquisa nessa área evolui constantemente — algumas terapias hoje experimentais podem se tornar padrão no futuro
- AUA e CUA têm recomendações praticamente equivalentes, com pequenas diferenças regionais
- Escolher a opção terapêutica certa não precisa ser um processo angustiante para o paciente
🩺 CONCLUSÃO DO DR. ROSSOL
A doença de Peyronie é muito mais do que uma questão estética ou uma curvatura no pênis — na minha experiência de mais de 20 anos tratando exclusivamente andrologia, é uma condição que compromete profundamente a qualidade de vida sexual do paciente. É uma doença mutiladora, e vejo o impacto psicológico que ela causa: homens que se afastam da vida sexual, que perdem autoestima, que ficam profundamente abalados emocionalmente com as mudanças no próprio corpo.
Por isso, reforço sempre a mesma orientação: procure um especialista, um andrologista, assim que perceber os primeiros sinais — uma dor durante a ereção, o início de uma curvatura. Diagnosticar e acompanhar a doença logo na fase inicial pode evitar a progressão e, em muitos casos, evitar que se chegue à necessidade de cirurgia.
Mas quero deixar um recado de otimismo para quem já está na fase tardia da doença: a cirurgia continua sendo o padrão-ouro (gold standard) de tratamento nesses casos, e funciona. Com a experiência que tenho de milhares de procedimentos realizados, posso afirmar que é possível, sim, resolver o problema — devolver a função, a curvatura adequada e a satisfação sexual ao paciente. Não é motivo para desespero: é motivo para buscar ajuda.
Referências:
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Nehra, A., Alterowitz, R., Culkin, D. J., Faraday, M. M., Hakim, L. S., Heidelbaugh, J. J., Khera, M., McVary, K. T., Miner, M. M., Nelson, C. J., Sadeghi-Nejad, H., Seftel, A. D., Shindel, A. W., & Burnett, A. L. (2015). Peyronie’s Disease (2015). American Urological Association. https://www.auanet.org/guidelines-and-quality/guidelines/peyronies-disease-guideline
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Fonte: SMSNA — What to Consider for Peyronie’s Disease Treatment. https://www.smsna.org/news/smsna/what-to-consider-for-peyronies-disease-treatment