É comum associar a queda da testosterona apenas à libido e à disfunção erétil — mas o impacto vai além disso. Um estudo recente publicado no Journal of Sexual Medicine, com participação de pesquisadores brasileiros, traz um alerta importante: a saúde óssea do homem que envelhece é mais complexa do que parece, e não depende só do nível de testosterona.
O que a queda de testosterona pode causar
Muitos homens acima dos 45 anos podem ter deficiência de testosterona, o que pode levar a:
- Disfunção erétil
- Alterações de humor
- Redução de massa muscular e força
- Cansaço e perda de resistência
- Alterações metabólicas
- Diminuição da densidade mineral óssea (DMO)
O papel duplo da testosterona e do estradiol
Aqui está um ponto pouco conhecido pelo público: a testosterona total (TT) ajuda a formar o osso, mas é o estradiol (E2) — hormônio que parte da testosterona se converte naturalmente no organismo masculino — que ajuda a manter a resistência óssea. Os dois trabalham juntos regulando o processo constante de renovação óssea. Quando um dos dois está baixo, esse equilíbrio pode ser prejudicado e o osso enfraquece com o tempo.
Importante: baixa densidade óssea não significa automaticamente que o homem tem deficiência de testosterona ou precisa de reposição hormonal (TRT). O diagnóstico correto exige sintomas associados a exames hormonais específicos.
A testosterona explica tudo? Os números dizem que não.
Os pesquisadores avaliaram 327 homens com 60 anos ou mais e não encontraram associação significativa entre a densidade óssea e a relação TT/E2. Alguns achados chamam atenção:
- Apenas 5% dos homens com DMO “normal” tinham deficiência de testosterona
- Apenas 2% dos homens com DMO “reduzida” tinham deficiência de testosterona
Ou seja: a maioria dos homens com osso fraco não tinha testosterona baixa — sinal de que outros fatores estão em jogo.
O peso corporal entra na equação
Um achado interessante: homens com relação TT/E2 mais baixa tendiam a ter IMC e circunferência abdominal maiores, sugerindo que o excesso de gordura corporal está associado à redução da atividade hormonal masculina.
Por outro lado, homens com DMO “normal” também tendiam a ter IMC mais alto — o que pode indicar que a perda de peso relacionada à idade é, ela mesma, um fator de risco para osteoporose. Os pesquisadores sugerem que um ganho moderado de peso pode até ajudar a proteger o osso em homens mais velhos.
Reposição de testosterona não é bala de prata
A TRT pode ser prescrita para homens com deficiência de testosterona confirmada e sintomática. Ela pode melhorar a densidade óssea em alguns casos, mas não é tratamento primário para osteoporose e não demonstrou reduzir o risco de fraturas.
Por isso, os autores recomendam uma abordagem mais ampla para a saúde óssea do homem que envelhece, combinando:
- Ajustes na alimentação
- Exercício aeróbico
- Estratégias de fortalecimento muscular
- Suplementação de vitamina D3
- TRT (Terapi de Reposição com Testosterona), quando indicada
🩺 CONCLUSÃO DO DR. ROSSOL
Um ponto que reforço bastante nos meus atendimentos: testosterona baixa não é sinônimo de “problema resolvido só com reposição”. A saúde óssea, assim como a saúde sexual, é multifatorial — envolve peso, exercício, alimentação e acompanhamento médico contínuo, não apenas um hormônio isolado. Homens acima dos 45 anos devem investigar a testosterona com exames adequados, mas sem esperar que a reposição hormonal resolva tudo sozinha.
TRT somente deve ser indicada quando o paciente apresentar nível baixo de testosterona associado a sintomas de hipogonadismo. Daí, sim, estaremos beneficiando o paciente em qualidade e quantidade de vida.
Referências:
Marquardt Filho, N., Da Ros, L. U., Da Ros, J. P., Carvalhal, G. F., Hallak, J., & Da Ros, C. T. (2026). Bone health in aging men: It’s not just about testosterone. The Journal of Sexual Medicine, 23(8). https://doi.org/10.1093/jsxmed/qdag220
Sizar O, Leslie SW, Schwartz J. Male Hypogonadism. [Updated 2024 Feb 25]. In: StatPearls [Internet]. Treasure Island (FL): StatPearls Publishing; 2026 Jan-. https://www.ncbi.nlm.nih.gov/books/NBK532933/
Fonte: SMSNA — https://www.smsna.org