Imagine passar por uma cirurgia que salva a sua vida. Você sai do hospital grato por estar vivo, mas com uma dúvida que ninguém respondeu e que você tem vergonha de perguntar: “E a minha vida sexual, como fica agora?”
É exatamente isso que mostra um estudo publicado em novembro de 2026 no The Journal of Sexual Medicine, a revista oficial da Sociedade Internacional de Medicina Sexual (ISSM). Como membro da ISSM, eu quis trazer essa leitura para você.
O que é um estoma?
Estoma (ou ostomia) é uma abertura criada pelo cirurgião na parede do abdômen para que as fezes ou a urina saiam do corpo para uma bolsa externa. Ele pode ser necessário em casos de câncer colorretal, doença de Crohn, retocolite, trauma ou doenças congênitas. Em muitos casos, é uma cirurgia que salva vidas.
Como o estudo foi feito
Pesquisadores da Universidade de Oxford entrevistaram, por telefone, 25 adultos de 21 a 59 anos com estoma permanente (17 mulheres e 8 homens), do Reino Unido, Irlanda, Estados Unidos, Canadá e Austrália. Cada pessoa contou, com suas próprias palavras, como ficou o seu bem-estar sexual depois da cirurgia e como foi o atendimento que recebeu sobre isso.
Aqui, “bem-estar sexual” quer dizer mais do que conseguir ou não ter relações. Inclui o corpo, as emoções, a autoestima, a segurança e a capacidade de se relacionar.
O que os pacientes contaram
1. O corpo mudou, e a cabeça também.
Cicatrizes, a própria aparência do estoma e, em alguns casos, hérnias ao redor dele fizeram muitos se sentirem pouco atraentes. Uma participante contou que se sentiu “desabilitada, feia, nada atraente”. Outro paciente, em um período de humor muito baixo, disse que não via pontos positivos suficientes nem para pensar em relacionamentos.
2. O medo da bolsa.
Vazamento, odor, ruídos ou a bolsa se soltando no meio da intimidade foram preocupações frequentes. Uma paciente aprendeu a trocar a bolsa antes de qualquer momento íntimo, depois de uma noite arruinada por um vazamento.
3. O medo da rejeição.
Quem tinha parceiro temia ser rejeitado. Quem estava solteiro não sabia quando contar sobre o estoma a uma pessoa nova.
4. O silêncio dos profissionais de saúde.
Esse foi o ponto mais forte do estudo. A maioria relatou que recebeu pouca ou nenhuma orientação sobre vida sexual. Uma jovem de 21 anos contou que só falaram com ela sobre gravidez e fertilidade, quando ela nunca quis ter filhos. Outros ouviram que deveriam “ser gratos por estar vivos”. E um paciente disse, com uma frase que resume tudo: “se isso é normal, por que não me disseram desde o começo?”
5. A internet virou a principal fonte.
Sem orientação confiável, muitos foram buscar respostas em fóruns e pesquisas na internet, o que pode piorar a insegurança.
O que os pacientes pedem
- Que os profissionais puxem o assunto, sem esperar que o paciente tenha coragem de perguntar.
- Que a conversa aconteça em mais de um momento: um aviso breve antes da cirurgia e novas oportunidades depois, quando a pessoa está pronta para ouvir.
- Que o cuidado seja individualizado (idade, tipo de estoma, relacionamento, orientação sexual) e, se o paciente quiser, inclua o parceiro ou a parceira.
- Informação confiável em folhetos e sites, com apoio de profissionais e de outras pessoas que também vivem com estoma.
Alguns cuidados ao interpretar
Os próprios autores apontam as limitações. A amostra é pequena, predominantemente feminina e ocidental. Há poucas pessoas com urostomia, e os participantes se voluntariaram, então quem teve mais dificuldade pode estar sobrerrepresentado. Os autores também destacam que muitas pessoas se adaptam bem ao estoma com o tempo. O estudo retrata principalmente o período de adaptação.
A conclusão do Dr. Rossol
Esse estudo mostra algo que vejo no consultório todos os dias: o homem raramente pergunta sobre sua vida sexual quando ninguém abre a porta para essa conversa. Dúvidas sobre ereção, autoestima e medo de decepcionar a parceira costumam ficar guardadas por anos, às vezes por décadas.
Quando uma cirurgia importante muda o corpo, a saúde sexual faz parte da recuperação e não é um luxo. Preocupação com a imagem corporal, com o desempenho e com a rejeição é legítima e merece o mesmo espaço que qualquer outro sintoma.
Se você tem um estoma, ou convive com alguém que tem, saiba disso: querer ter uma vida sexual satisfatória é normal, e existe ajuda. Você não precisa “se virar sozinho” nem se contentar com o “ainda bem que você está vivo”.
Converse com seu médico, procure um especialista em saúde sexual masculina e, se for o caso, leve a parceira ou o parceiro junto. Sexualidade tratada com ciência, sem tabu, faz parte de viver bem.
Quer conversar sobre sua saúde sexual?
Se você tem dúvidas sobre ereção, doença de Peyronie, prótese peniana ou estética genital, agende uma consulta com o Dr. Alessandro Rossol, urologista dedicado exclusivamente à saúde sexual do homem, com atendimento no Hospital Moinhos de Vento e no Hospital Mãe de Deus, em Porto Alegre.
- WhatsApp: (51) 98197-1117
- Telefone: (51) 3230-2622
- Site: alessandrorossol.com.br
- Instagram: @rossolurologista
Referências
- Fourie S, Johnstone LJ, Ma S. “You don’t know what it’s like until you live with it”: a qualitative study on experiences of sexual wellbeing after permanent ostomy formation. J Sex Med. 2026;23(11):qdag335. doi:10.1093/jsxmed/qdag335
- Fourie S, Bornschein J, Norton C, Czuber-Dochan W. “And don’t say everything will be normal!”: an international cross-sectional survey on the patients’ unmet sexual wellbeing needs after ostomy formation. Colorectal Dis. 2025;27(10):e70264. doi:10.1111/codi.70264
- Reese JB, Finan PH, Haythornthwaite JA, et al. Gastrointestinal ostomies and sexual outcomes: a comparison of colorectal cancer patients by ostomy status. Support Care Cancer. 2014;22(2):461-468. doi:10.1007/s00520-013-1998-x