Resumo: Quando o homem tem doença de Peyronie e também não consegue ter ereção suficiente, a prótese peniana inflável pode resolver os dois problemas. A discussão entre os especialistas é até onde ir na cirurgia: fazer o mínimo necessário ou buscar a máxima correção, inclusive do comprimento perdido. Entenda os dois lados e o que isso significa para você.
Entendendo o problema: Peyronie + disfunção erétil
A doença de Peyronie é causada por uma placa de tecido fibroso na túnica albugínea, a “capa” que envolve os corpos cavernosos do pênis. Essa placa pode provocar:
- curvatura do pênis na ereção;
- deformidades, como estreitamento (“cintura”) ou “dobradiça”;
- dor, nas fases iniciais;
- perda de comprimento e, às vezes, de circunferência.
Muitos pacientes com Peyronie também desenvolvem disfunção erétil (DE), seja pela alteração do tecido, pela ansiedade ou por doenças associadas. Quando a DE não responde a medicamentos, a prótese peniana inflável costuma ser o tratamento mais indicado. Ela garante a rigidez e, em muitos casos, ajuda a corrigir a curvatura ao mesmo tempo.
O debate no congresso da SMSNA
No 27º Encontro Científico Anual da SMSNA, em 9 de outubro, dois especialistas de referência discutiram o tema em formato de debate: “menos é mais” ou “terapia máxima”?
O argumento do Dr. Martin Gross: menos é mais
O Dr. Gross defendeu que, na maioria dos casos, a própria prótese já faz grande parte do trabalho. Ele citou o estudo PUMP, no qual apenas cerca de 2% dos pacientes precisaram de enxerto. Seus pontos principais:
- Curvatura menor que 45°: costuma bastar a prótese associada à modelagem manual. A técnica de scratch, que rompe a placa, entra como auxiliar quando necessário.
- Curvatura maior que 45°: a prótese ainda corrige boa parte do desvio. Se for preciso, faz-se uma incisão na placa (técnica de Brock).
- Vantagem: menos procedimentos adicionais significa menos risco de complicações como hematoma, perda de sensibilidade e necrose da glande.
O argumento do Dr. Laurence Levine: correção máxima
O Dr. Levine defendeu uma abordagem mais ampla, pensando no que o paciente realmente sente falta. Para muitos homens, o maior incômodo é a perda de comprimento, e não só a curvatura. Seus pontos principais:
- Se o objetivo da cirurgia é recuperar comprimento e circunferência, corrigir a curvatura e deixar o pênis funcionalmente reto e rígido, a cirurgia precisa ir além da prótese isolada.
- O desafio é técnico: a anatomia do feixe neurovascular na fáscia de Buck pode ser imprevisível, e os riscos da cirurgia podem limitar o resultado ideal.
- Ele destacou o procedimento de expansão da túnica (TEP), que usa pequenas incisões na túnica albugínea para permitir que o pênis se expanda durante o implante da prótese.
- Com o TEP, os pacientes tiveram ganho médio de 1,7 cm no comprimento esticado, com poucas complicações relatadas.
- Sua conclusão: o TEP é uma opção razoável para pacientes com sofrimento importante pela perda de comprimento ou circunferência.
Dois lados, objetivos diferentes
| “Menos é mais” | “Correção máxima” | |
|---|---|---|
| Foco principal | Rigidez + pênis reto, com o mínimo de intervenção | Recuperar também comprimento e circunferência |
| Ferramentas | Prótese, modelagem, scratch, incisão de Brock se necessário | Prótese + expansão da túnica (TEP) e outras manobras |
| Vantagem | Menos riscos adicionais | Mais chance de devolver o que o paciente sente ter perdido |
| Cuidado | Pode deixar a queixa de comprimento sem resposta | Cirurgia mais complexa, que exige experiência |
As duas visões não são excludentes. O que muda é o objetivo prioritário e o perfil de cada paciente.
O que isso significa na prática para o paciente
1. Nem toda cirurgia precisa ser grande. Muitos pacientes com Peyronie e DE ficam bem com a prótese e manobras simples durante o próprio implante. Fazer mais do que o necessário aumenta riscos sem benefício.
2. A perda de comprimento é uma queixa legítima. Para alguns homens, ela pesa tanto quanto a curvatura. Ela deve ser levada a sério e conversada antes da cirurgia, não descoberta depois.
3. Expectativa realista é parte do tratamento. Mesmo com técnicas de ampliação, a meta é melhorar o comprimento, não necessariamente devolver o tamanho exato de antes da doença. O ganho citado de 1,7 cm é uma média, e cada caso é diferente.
4. Quanto mais complexa a técnica, mais importa o cirurgião. Cirurgia de Peyronie com prótese exige conhecimento da anatomia, domínio de várias técnicas e capacidade de decidir durante a cirurgia qual é o passo certo.
5. Cada passo extra tem um preço. Hematoma, alteração de sensibilidade e problemas na glande são riscos reais, e por isso a indicação de cada manobra precisa ser criteriosa.
Perguntas para fazer ao seu cirurgião
- Qual é o grau da minha curvatura e que deformidades eu tenho?
- Só a prótese resolve ou serão necessárias manobras adicionais?
- Qual é o meu comprimento hoje e o que posso esperar após a cirurgia?
- Quais são os riscos de cada técnica que o senhor pretende usar?
- Qual é a sua experiência com Peyronie associada a prótese peniana?
Conclusão do Dr. Rossol
Esse debate mostra algo que vejo todos os dias no consultório: não existe uma cirurgia única para todos os pacientes com Peyronie e disfunção erétil. A pergunta “menos é mais ou correção máxima?” só tem resposta quando olhamos para o paciente real: o grau da curvatura, a presença de deformidades, a qualidade do tecido e, principalmente, o que ele espera da cirurgia.
Na minha experiência, o ponto de partida é sempre uma conversa franca. Há homens para quem o essencial é ter ereção firme e um pênis reto, e nesses casos a prótese, com as manobras necessárias e nada além, é a melhor escolha. Há outros para quem a perda de comprimento é a maior fonte de sofrimento, e esses pacientes merecem ser ouvidos e ter o tema discutido abertamente, com possibilidades e limites bem explicados. Tive a oportunidade de me formar em Chicago com o Dr. Levine, e aprendi lá que a técnica certa é aquela indicada para o caso certo, com planejamento e respeito à anatomia.
Duas coisas considero inegociáveis. A primeira é que cada manobra adicional só deve ser feita quando houver uma razão clara, porque mais cirurgia significa mais risco. A segunda é que o resultado depende da experiência de quem opera, pois são cirurgias que exigem decisões precisas no momento do implante.
Se você tem Peyronie, convive com disfunção erétil e está pensando em uma prótese peniana, não decida sozinho e não deixe a dúvida sobre o tamanho para depois da cirurgia. Procure uma avaliação especializada, leve suas dúvidas e expectativas e construa o plano junto com o seu médico.
Dr. Alessandro Rossol
Urologista, com atuação exclusiva em Andrologia
Porto Alegre – RS
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