A doença de Peyronie — popularmente conhecida como “pênis torto” — é uma das condições que mais geram angústia entre os homens. Ela acontece quando se forma uma placa de tecido fibroso (uma espécie de cicatriz endurecida) dentro do pênis, causando curvatura, dor durante a ereção e, muitas vezes, dificuldade nas relações sexuais.
Para os casos mais graves, quando os tratamentos clínicos já não resolvem, a cirurgia entra em cena. E um estudo publicado em setembro de 2026 no The Journal of Sexual Medicine apresenta uma técnica cirúrgica refinada que promete corrigir a curvatura preservando algo fundamental: a capacidade de ereção.
O problema com as cirurgias tradicionais
Existem basicamente três caminhos cirúrgicos para a Peyronie: a plicatura (que “encolhe” o lado oposto à curvatura), a remoção/incisão da placa com enxerto, e a colocação de prótese peniana nos casos com disfunção erétil associada.
A cirurgia de remoção da placa com enxerto é eficaz para endireitar, mas historicamente carrega alguns riscos importantes: pode causar disfunção erétil nova (que não existia antes), encurtamento do pênis (relatado por até 85% dos homens operados de Peyronie) e perda temporária de sensibilidade na glande. Isso acontece, em parte, porque as técnicas clássicas removem blocos inteiros de tecido, o que pode comprometer o mecanismo que “segura” o sangue dentro do pênis durante a ereção.
Foi para tentar superar essas limitações que os pesquisadores desenvolveram a técnica estudada.
A ideia central: desgastar com precisão, em vez de cortar em bloco
A grande inovação do estudo é um conceito que os autores chamam de “redução precisa de volume” — em oposição à “remoção em bloco”.
Em vez de simplesmente cortar fora toda a placa endurecida, os cirurgiões usam uma microbroca elétrica de alta velocidade, sob visão de microscópio (com aumento de 5 a 10 vezes), para desgastar a placa camada por camada, de forma controlada. O objetivo é reduzir e afrouxar o tecido fibroso com o máximo de cuidado, preservando ao máximo o tecido saudável ao redor.
Depois desse desgaste, forma-se uma espécie de “rede” de pequenas aberturas na área tratada, o que devolve flexibilidade ao pênis. O defeito que resta é então coberto com um enxerto — usando tecido do próprio paciente (a túnica vaginal, retirada da região da bolsa escrotal) ou um enxerto de pericárdio bovino (material biológico comercial).
Todo o procedimento é feito com cuidado especial para preservar os nervos e vasos responsáveis pela sensibilidade e pela ereção.
Os resultados
O estudo acompanhou 45 pacientes com Peyronie de moderada a grave (curvatura acima de 60 graus) operados entre 2021 e 2025, com acompanhamento médio de cerca de 11 meses. Os números foram animadores:
- Endireitamento satisfatório em 91,1% dos casos (curvatura residual de 10 graus ou menos). Os demais ficaram com uma curvatura leve, entre 10 e 20 graus, que não atrapalhou a vida sexual.
- Função erétil preservada. Esse talvez seja o dado mais importante. Os escores de ereção praticamente não mudaram do pré para o pós-operatório — ou seja, a cirurgia corrigiu a curvatura sem prejudicar a ereção.
- Alta satisfação: 93,3% dos pacientes se declararam satisfeitos ou muito satisfeitos.
- Melhora expressiva do incômodo: o escore que mede o quanto a doença incomodava o paciente caiu drasticamente.
- Comprimento do pênis: aqui há um detalhe interessante. Objetivamente, a medição mostrou até um pequeno ganho médio de comprimento (cerca de 1,4 cm) em relação ao pênis curvo antes da cirurgia. Mesmo assim, cerca de metade dos pacientes teve a sensação subjetiva de que o pênis ficou mais curto — porque comparavam com o tamanho de antes da doença, não com o estado curvo pré-cirurgia.
Os dois tipos de enxerto (tecido do próprio paciente ou pericárdio bovino) tiveram resultados parecidos, sem diferença estatística relevante.
As limitações que merecem honestidade
Como todo bom estudo científico, este também reconheceu seus limites. Trata-se de uma pesquisa de um único centro, retrospectiva (olhando para trás, para casos já operados), com um número relativamente pequeno de pacientes (45 no total, sendo apenas 11 com o enxerto bovino) e acompanhamento de no máximo 24 meses.
A complicação mais comum foi a perda temporária de sensibilidade na glande, que ocorreu em cerca de três quartos dos pacientes — mas que se resolveu sozinha em 1 a 3 meses em todos os casos.
Por isso, os próprios autores são cautelosos: os resultados são promissores e preliminares, e ainda precisam ser confirmados por estudos maiores, com mais centros e desenho mais rigoroso, antes de a técnica ser adotada em larga escala.
Por que isso importa
A mensagem central é encorajadora: a cirurgia da Peyronie está evoluindo. Técnicas mais refinadas, feitas sob microscópio e com foco na preservação dos tecidos, apontam para um futuro em que corrigir a curvatura não precisa mais significar abrir mão da ereção. Para o homem que convive com o “pênis torto”, isso representa esperança real de recuperar não só a anatomia, mas também a confiança e a qualidade de vida.
Conclusão do Dr. Rossol
Como urologista dedicado exclusivamente à saúde sexual masculina, e tendo a doença de Peyronie como um dos principais focos da minha prática, acompanho de perto esse tipo de avanço. Este estudo reforça uma direção que considero fundamental na cirurgia peniana moderna: corrigir a curvatura preservando a função.
O ponto que mais me chama a atenção é a filosofia por trás da técnica — trabalhar com precisão milimétrica, sob microscópio, respeitando ao máximo os tecidos saudáveis, os nervos e os vasos. É exatamente essa mentalidade de “menos agressão, mais preservação” que faz a diferença entre um resultado apenas anatômico e um resultado que devolve ao homem a sua vida sexual por completo.
Quero, porém, ser transparente com você. Estes resultados estão bons demais, acima da média. Nenhuma técnica é mágica ou serve para todos os casos. A escolha do procedimento — plicatura, enxerto ou prótese — depende do grau da curvatura, da qualidade da ereção e das características individuais de cada paciente. Por isso, a avaliação especializada e individualizada é insubstituível.
Algumas orientações práticas que passo aos meus pacientes com Peyronie:
- Não espere para procurar ajuda. A doença tem uma fase inicial (ativa) e uma fase estável. Entender em que momento você está é decisivo para escolher o tratamento certo — e a cirurgia, em geral, só é indicada na fase estável.
- Não se assuste com a curvatura. Muitos casos têm solução, e os resultados cirúrgicos atuais são muito bons, com altíssimas taxas de satisfação.
- Encare o encurtamento com informação. O objetivo principal da cirurgia é endireitar o pênis, não recuperar o tamanho de antes da doença. Uma boa orientação pré-operatória evita frustrações e ansiedade desnecessária.
- Fuja das soluções milagrosas. Não existe “creme” ou “aparelho” que desentorte um pênis com placa consolidada. Confie em avaliação médica séria.
Se você percebe o pênis entortando, sente dor na ereção ou notou um endurecimento (“caroço”) no pênis, não carregue isso sozinho nem sofra em silêncio. A doença de Peyronie tem tratamento, e quanto mais cedo avaliada, melhores as opções.
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Fonte: Zhou L, Zhao J, Lu L, et al. Clinical effect of microscopic plaque grinding combined with graft repair in the treatment of Peyronie’s disease: a retrospective cohort study. The Journal of Sexual Medicine, Volume 23, Issue 9, September 2026. https://doi.org/10.1093/jsxmed/qdag240