Priapismo: o que é, como agir e quando a prótese peniana é indicada

Priapismo é uma emergência urológica: toda ereção dolorosa que passa de 4 horas, sem estímulo sexual, exige atendimento imediato, porque cada hora pode decidir se a ereção será preservada.

O que é priapismo?

Priapismo é uma ereção que dura mais de 4 horas e não está ligada a estímulo ou desejo sexual. Em geral é dolorosa e não passa com a ejaculação. Existem três tipos:

  • Isquêmico (baixo fluxo): o sangue fica preso no pênis e não circula. É o tipo mais comum (mais de 95% dos casos), costuma doer muito e é uma emergência. [4]
  • Não isquêmico (alto fluxo): costuma surgir depois de um trauma no pênis ou no períneo. A ereção é menos rígida, geralmente sem dor, e não é emergência. [2]
  • Recorrente (intermitente): episódios que vão e voltam, comuns em quem tem anemia falciforme. [2]

As causas mais conhecidas são injeções penianas para ereção (como o Trimix), alguns medicamentos (antipsicóticos e anti-hipertensivos, por exemplo), drogas, doenças do sangue e traumas. Em muitos casos nenhuma causa é encontrada. [8]

O tipo isquêmico é o que mais preocupa: sem circulação, o músculo do pênis sofre por falta de oxigênio e, com o passar do tempo, é substituído por cicatriz (fibrose). O resultado pode ser um pênis endurecido, mais curto e sem capacidade de ereção. [6]

Como agir na fase aguda?

Ereção dolorosa há mais de 4 horas: vá agora a um pronto-socorro, de preferência em hospital com urologista de plantão. Não espere passar.

  1. Não perca tempo. A duração do priapismo é o principal fator ligado à perda da ereção. [11]
  2. Anote a hora em que a ereção começou. Essa informação orienta toda a decisão médica.
  3. Conte tudo ao médico: uso de injeção para ereção, medicamentos, drogas e se você tem anemia falciforme.
  4. Não tente resolver em casa. Métodos caseiros não substituem o atendimento e só atrasam o tratamento.
  5. Não se tranquilize se a dor diminuir. Isso não significa que a circulação voltou.

No hospital, o tipo de priapismo é confirmado (análise do sangue do pênis e, às vezes, ecodoppler). O primeiro tratamento é esvaziar o sangue preso com uma punção (aspiração), com ou sem lavagem, e aplicar no pênis uma medicação que faz o sangue voltar a circular. [9] Quando isso não resolve, é preciso operar, como explicado a seguir.

Opções de cirurgia

Quando a aspiração e a medicação não resolvem, a cirurgia cria uma saída para o sangue preso. As principais opções são:

  • Shunt distal: abre uma passagem entre a glande e os corpos cavernosos. É a técnica clássica e pode ser combinada com uma “tunelização” interna para desobstruir os corpos cavernosos. [3,5]
  • Shunt proximal: cria a drenagem em um ponto mais próximo da base do pênis. É usado quando o shunt distal não funciona. [3]
  • Descompressão penoescrotal: técnica mais recente que drena o sangue por uma abertura na parte proximal dos corpos cavernosos, poupando a glande. Uma revisão sistemática encontrou resolução da ereção em 89,3% dos casos, e alguns pacientes preservaram a função erétil. [11] Em levantamento com cirurgiões que usaram as duas técnicas, ela foi vista como mais eficaz que o shunt distal nos casos prolongados. [10]
  • Prótese peniana: pode ser a melhor escolha quando o priapismo é muito prolongado ou o shunt falha (veja as seções a seguir). [1]

Nenhuma técnica garante a volta da ereção: quanto mais tempo de isquemia, menor a chance de recuperação. Por isso a cirurgia deve ser feita sem demora, por equipe com experiência em cirurgia peniana.

A importância do ecodoppler após o priapismo

Depois que a ereção termina, o ecodoppler peniano mostra se o sangue voltou a circular nos corpos cavernosos. Ele deve ser feito mesmo que você se sinta bem. O exame ajuda a:

  • Medir o dano: se o sangue não volta a circular (ausência de perfusão), o músculo do pênis provavelmente foi muito lesado e a chance de recuperar a ereção é pequena. As diretrizes britânicas (BAUS) defendem prótese precoce quando o ecodoppler ou a ressonância mostram ausência de fluxo entre 48 e 72 horas. [6]
  • Detectar uma fístula: a punção ou o shunt podem criar uma ligação anormal entre artéria e corpos cavernosos, causando priapismo de alto fluxo. [4]
  • Confirmar o tipo de priapismo quando o diagnóstico fica em dúvida. [1]
  • Planejar a cirurgia e definir o melhor momento para a prótese.

Guarde o laudo do exame e leve-o ao andrologista. Ele é uma peça-chave para decidir o que fazer a seguir.

Quando colocar prótese

A prótese peniana é uma opção quando o priapismo isquêmico foi tratado tarde ou não respondeu ao tratamento e a ereção natural dificilmente voltará:

  • Mais de 36 horas de priapismo isquêmico sem tratamento. A diretriz americana (AUA/SMSNA) manda avisar o paciente de que a chance de recuperar a ereção é baixa e permite considerar a prótese. [1] Em revisões, a maioria dos pacientes nessa situação desenvolve disfunção erétil. [4]
  • Falha do shunt. A mesma diretriz admite a prótese em quem não respondeu à cirurgia de drenagem. [1]
  • Priapismo muito prolongado. A diretriz europeia (EAU) recomenda considerar o implante imediato. [2] Revisões clínicas também apontam a prótese imediata como mais adequada nas apresentações tardias, de 48 a 72 horas. [12]
  • Sinais de fibrose: pênis endurecido, sem ereção, que começa a encurtar nas semanas seguintes. [8]

Essa cirurgia é tecnicamente exigente, principalmente quando já existe fibrose. Ela deve ser feita por um andrologista com vasta experiência em cirurgia peniana, que saiba prevenir o encurtamento e tratar as complicações. Se você passou por priapismo tratado tardiamente, procure esse especialista o quanto antes. Nesses casos, a diretriz americana recomenda discutir com o paciente os riscos e benefícios do implante precoce e do tardio. [1]

Qual o momento ideal para colocar prótese

O momento ideal é cedo, assim que a isquemia prolongada é confirmada e a recuperação da ereção é improvável, antes que a fibrose se instale e o pênis encurte.

  • Em uma revisão de 2025, o implante precoce teve maior satisfação, menos reoperações, menos encurtamento do pênis e menos complicações na cirurgia do que o implante tardio. [6]
  • Em uma metanálise, o grupo operado tardiamente teve mais complicações e muito mais fibrose. Os resultados favoreceram operar em até cerca de 30 dias após o priapismo. [7]
  • A prótese maleável colocada precocemente ajuda a manter o comprimento do pênis e permite voltar mais cedo à vida sexual. [8]
  • Shunts prévios aumentam o risco de complicações do implante precoce. [6] Por isso, a conversa sobre prótese deve começar logo, de preferência antes de uma sequência de cirurgias.
Tempo de ereçãoO que significa
4 horasEmergência: procurar hospital
Cerca de 20 horasPara o Dr. Andino, já é caso complexo [11]
24 a 36 horasLimiares das diretrizes internacionais; após 36 h a chance de recuperação é baixa [1]
48 a 72 horasSem fluxo ao ecodoppler ou à ressonância, a BAUS defende prótese precoce [6]
Até cerca de 30 diasJanela em que o implante precoce foi favorecido [7]

Novidades do congresso da SMSNA

No 27º Encontro Científico de Outono da SMSNA (Sociedade de Medicina Sexual da América do Norte), em 10 de outubro de 2026, o Dr. Juan Andino discutiu os desafios da cirurgia no priapismo isquêmico prolongado. Os principais pontos: [11]

  • Antecipar o conceito de caso complexo. Priapismo isquêmico com cerca de 20 horas já deve ser tratado como complexo, sem esperar chegar às 24 horas.
  • Descomprimir imediatamente é o objetivo principal. A prótese entra na conversa conforme o tempo de priapismo e a chance de a ereção se recuperar.
  • Descompressão penoescrotal é uma alternativa promissora. Em vez de ligar a glande aos corpos cavernosos, como no shunt clássico, ela drena o sangue por uma abertura na parte proximal dos corpos cavernosos e poupa a glande. Uma revisão sistemática mostrou resolução em 89,3% dos casos, com preservação da ereção em parte dos pacientes.
  • O tempo é o maior fator de risco. Estudo citado na palestra apontou a duração do priapismo como o principal previsor de disfunção erétil.
  • As diretrizes ainda são conservadoras. As recomendações internacionais variam entre limiares de 24 e 36 horas. A AUA/SMSNA permite considerar a prótese após mais de 36 horas sem tratamento ou após falha do shunt, mas o Dr. Andino defende intervir antes para aumentar a chance de preservar a ereção.

Conclusão do Dr. Rossol

Priapismo é uma emergência em que o relógio decide o resultado. Ereção dolorosa com mais de 4 horas exige hospital imediatamente, e quanto mais cedo o sangue é drenado, maiores as chances de preservar a ereção.

Quando o priapismo isquêmico foi tratado tarde, com isquemia prolongada e fibrose em formação, a prótese peniana precoce é a melhor forma de evitar o encurtamento do pênis e de devolver a função sexual. Esperar meses piora o cenário: a cirurgia fica mais difícil e o resultado, menos favorável.

Essa cirurgia deve ser feita por um especialista em andrologia com ampla experiência em cirurgia peniana. Se você ou alguém próximo passou por um episódio de priapismo prolongado, procure avaliação o quanto antes.

Dr. Alessandro Rossol, urologista andrologista, Porto Alegre. Membro da AUA e da ISSM. Atendimento no Hospital Moinhos de Vento e no Hospital Mãe de Deus.

Agende sua consulta: WhatsApp (51) 98197-1117 · Telefone (51) 3230-2622 · alessandrorossol.com.br · Instagram @rossolurologista

Referências bibliográficas

  1. Bivalacqua TJ, Allen BK, Brock G, et al. Acute Ischemic Priapism: an AUA/SMSNA Guideline; e The Diagnosis and Management of Recurrent Ischemic Priapism, Priapism in Sickle Cell Patients, and Non-Ischemic Priapism: an AUA/SMSNA Guideline (2022). auanet.org
  2. Salonia A, Eardley I, Giuliano F, et al. European Association of Urology guidelines on priapism. Eur Urol. 65(2). Resumo
  3. Milenkovic U, Cocci A, Veeratterapillay R, et al. Surgical and minimally invasive treatment of ischaemic and non-ischaemic priapism: a systematic review by the EAU Sexual and Reproductive Health Guidelines panel. Int J Impot Res. 2024;36:36-49. doi:10.1038/s41443-022-00604-1
  4. Alnajjar HM, Muneer A. Recent advances in understanding and treating priapism. Fac Rev. 2022;11:23. doi:10.12703/r/11-23
  5. Surgical Management of Ischemic Priapism: what are the New Options? PMC11869914
  6. Early penile prosthesis implantation in refractory ischaemic priapism: a narrative review. Int J Impot Res. doi:10.1038/s41443-025-01199-z
  7. Elmarasi M, Alsaeedi A, Elmakaty I, et al. Early vs delayed insertion of penile prosthesis in patients with refractory priapism: a systematic review and meta-analysis. J Sex Med. 2024;21(Suppl 4):qdae041.025. doi:10.1093/jsxmed/qdae041.025
  8. Tay YK, Spernat D, Appu S, Love C. Early penile prosthesis insertion in the delayed presentation of ischemic priapism. UroToday Int J. 2012;5(3):art 28. Texto
  9. Bajic P. Acute ischemic priapism: update in clinical guidance prioritizes longer-term sexual function. Urology Times. Artigo
  10. Reconstructive urologists trending toward penoscrotal decompression for prolonged ischemic priapism. AUA News. 2024. Artigo
  11. Andino J. Surgical challenges of prolonged ischemic priapism. 27th Annual SMSNA Fall Scientific Meeting, 10 de outubro de 2026 (resumo da palestra publicado pela SMSNA).
  12. Ahmed K, Ridgley J, Raison N, et al. Ischaemic priapism: a clinical review. Urol Res Pract. 2017;43(1). Artigo

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