Reoperação e Revisão de Prótese Peniana: quando e por que acontece

Existe uma pergunta que o paciente raramente faz em voz alta, mas quase sempre pensa: “E se a prótese der problema? Vou precisar operar de novo?” É uma dúvida legítima, e a resposta honesta é: pode acontecer, e a ciência já sabe bastante sobre quando e por quê. Reuni aqui os principais dados de revisões e estudos recentes sobre o tema, incluindo uma análise de 2026 publicada no Journal of Sexual Medicine.

Quanto tempo dura uma prótese?

As próteses infláveis de três peças são dispositivos duráveis. A sobrevida mecânica relatada na literatura chega a cerca de 96% em 5 anos, 86% em 10 anos e 53% em 20 anos. Isso significa que a grande maioria funciona bem por muitos anos, mas que, com o passar das décadas, a chance de precisar de uma intervenção aumenta. É um dispositivo mecânico implantado no corpo, e todo dispositivo tem vida útil.

Uma análise de 2026 com dados reais de quase 30 mil homens mostrou que, em 5 anos, cerca de 14% dos pacientes com prótese inflável tiveram revisão ou remoção do dispositivo, taxa semelhante à das próteses maleáveis. As infláveis tiveram menos remoções totais do que as maleáveis, mas mais falhas mecânicas (9,1% contra 6,7%) e mais deslocamentos do dispositivo. A taxa de infecção não diferiu entre os dois tipos.

Por que a revisão acontece

Os motivos se dividem em dois grandes grupos.

1. Falha mecânica (a causa mais comum)
Ela responde por aproximadamente metade das cirurgias de revisão, e em algumas séries por até dois terços. Como a prótese inflável tem vários componentes conectados por tubos (cilindros, bomba e reservatório), qualquer um deles pode falhar. O problema mais frequente é o vazamento de fluido, seja por fratura de um tubo, seja por desgaste ou rasgo em um cilindro. Problemas na bomba também podem ocorrer, embora com menos frequência.

2. Causas não mecânicas

  • Infecção, a complicação mais temida, geralmente aparece nos primeiros meses após a cirurgia
  • Erosão ou extrusão, quando algum componente pressiona os tecidos e tende a sair do lugar
  • Mau posicionamento ou deslocamento de bomba, reservatório ou cilindros
  • Insatisfação do paciente, principalmente com o comprimento ou com a aparência do pênis

Quem tem mais risco de precisar de nova cirurgia?

Um estudo com 530 pacientes que receberam a primeira prótese inflável em um grande centro urbano encontrou reoperação em 12,1% dos casos, principalmente por infecção, com tempo mediano de 4 meses após a cirurgia. Os fatores associados a maior chance de reoperação foram:

  • Diabetes mal controlado (hemoglobina glicada acima de 8)
  • Tabagismo ativo
  • Doença de Peyronie
  • Maior sangramento durante a cirurgia

Nesses fatores, o risco foi cerca de duas a três vezes maior. Uma revisão de 2024 lembra que a relação entre Peyronie ou tabagismo e a falha mecânica ainda tem evidência de baixa qualidade, com resultados conflitantes entre os estudos. Ainda assim, o recado prático é claro: controlar o diabetes e parar de fumar antes da cirurgia são medidas que reduzem risco.

Revisão é mais delicada que a primeira cirurgia

Operar de novo é possível e muito frequente na prática, mas tem suas particularidades. A infecção após revisão pode ser mais comum do que na primeira cirurgia. Em pacientes diabéticos, o risco pode ser de 2 a 10 vezes maior. Um estudo pequeno sugeriu ainda que o risco de infecção aumenta a cada nova troca do dispositivo, o que reforça a importância de acertar bem na primeira revisão.

Um ponto técnico relevante: quando um componente falha, o cirurgião pode trocar só a peça com defeito ou substituir o dispositivo inteiro. Um estudo multicêntrico mostrou que a troca parcial teve mais infecção (7,1%) do que a troca completa (2,2%), além de mais falhas posteriores. A revisão de 2024 conclui que a substituição completa está associada a menos complicações do que trocar apenas a peça com defeito. O reservatório antigo, quando não infectado, pode em geral ser mantido no local com segurança, evitando risco de lesão em estruturas vizinhas.

Quando procurar seu médico

Alguns sinais merecem avaliação sem demora:

  • Dificuldade para inflar ou desinflar a prótese, ou perda de rigidez
  • Bomba que mudou de posição ou ficou difícil de acionar
  • Dor persistente, vermelhidão, inchaço ou febre (possível infecção)
  • Alteração na pele sobre o dispositivo

O que levar para casa

  • A prótese peniana é durável, mas não é eterna: com o tempo, a chance de revisão aumenta
  • A causa mais comum de reoperação é a falha mecânica, principalmente vazamento por tubos ou cilindros
  • Infecção é a principal causa de reoperação precoce, e controlar diabetes e tabagismo antes da cirurgia ajuda a prevenir
  • Quando a revisão é necessária, a troca completa do dispositivo tende a ter menos complicações do que a troca parcial
  • Precisar de revisão não significa que a cirurgia foi um fracasso, e a maioria dos pacientes segue com bons resultados


🩺 CONCLUSÃO DO DR. ROSSOL

Em mais de 20 anos de andrologia, aprendi que conversar com franqueza sobre a possibilidade de revisão faz parte de um bom aconselhamento. A prótese peniana é um tratamento consolidado, mas continua sendo um dispositivo, e todo dispositivo pode, um dia, precisar de manutenção. Isso não significa que a cirurgia falhou: é parte do acompanhamento a longo prazo.

Por saber que os riscos existem, sigo um protocolo padronizado na técnica cirúrgica, com etapas definidas e voltado à redução de complicações. Esse protocolo é revisado com frequência à luz da literatura científica. Para mantê-lo atualizado, participo de congressos e acompanho cirurgiões de outros centros, no Brasil e no exterior, para conhecer avanços em técnica, tecnologia, materiais e condutas. O objetivo é oferecer ao paciente um tratamento seguro e atualizado. Vale lembrar que cada caso é individual e que nenhum procedimento tem resultado garantido.

A preparação do paciente também faz diferença: diabetes controlado, abandono do cigarro, expectativas realistas e acompanhamento com um médico experiente, tanto na primeira cirurgia quanto em uma eventual revisão, que é tecnicamente mais complexa. Se você já tem uma prótese e percebeu qualquer alteração no funcionamento, procure seu andrologista sem demora. Avaliado a tempo, cada caso pode ter sua conduta definida com mais segurança.


Referências:

Amini, E., Saldivar, R., Hammad, M. A., & Barham, D. W. (2024). Malfunction and mechanical failure of the inflatable penile prosthesis: a narrative review of etiologies and management. AME Medical Journal, 9, 28. https://doi.org/10.21037/amj-23-110

Inflatable penile prostheses long-term revision and removal rates compared to semi-rigid penile prostheses: a real-world analysis from a global electronic health record (EHR) database. (2026). The Journal of Sexual Medicine, 23(3). https://academic.oup.com/jsm/article-abstract/23/3/qdag034/8488664

Risk factors for reoperation of inflatable penile prosthesis among an ethnically diverse urban population in a high-volume center. (2024). International Journal of Impotence Research. https://www.nature.com/articles/s41443-024-00966-8

Henry, G. D., Donatucci, C. F., Conners, W., et al. (2012). An outcomes analysis of over 200 revision surgeries for penile prosthesis implantation: a multicenter study. Journal of Sexual Medicine, 9, 309–315.

Fonte: AME Medical Journal — https://amj.amegroups.org/article/view/9344/html

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Dr. Alessandro Rossol, urologista andrologista em Porto Alegre
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