Cannabis e fertilidade masculina:
o que a literatura sugere sobre sêmen,
hormônios, libido e ereção.
Cannabis e fertilidade masculina é um tema sensível, porque envolve saúde reprodutiva, sexualidade, uso medicinal, uso recreativo e decisões pessoais. Portanto, este conteúdo não tem objetivo de julgamento moral. A proposta é explicar, com cuidado, o que uma revisão sistemática publicada no Journal of Urology descreveu sobre possíveis impactos da cannabis, popularmente chamada de maconha, no eixo reprodutivo masculino.
Cannabis e fertilidade masculina precisa ser discutida com equilíbrio. Por um lado, a cannabis medicinal tem sido estudada em condições como dor neuropática, esclerose múltipla e outros quadros clínicos. Por outro lado, apesar de sua popularidade crescente, ainda existem dúvidas relevantes sobre efeitos negativos em homens em idade reprodutiva.
Além disso, a fertilidade masculina não depende de um único fator. Ela envolve produção hormonal, função testicular, qualidade do sêmen, motilidade dos espermatozoides, capacidade de fertilização, libido, ereção e saúde geral. Por isso, qualquer análise séria precisa evitar conclusões simplistas.
Um tema polêmico exige linguagem responsável
Este artigo não substitui consulta médica e não deve ser usado para condenar ou incentivar o uso de cannabis. Portanto, se o paciente usa maconha medicinal ou recreativa, especialmente enquanto tenta engravidar, o ideal é conversar de forma aberta com o urologista ou andrologista. Assim, a orientação pode considerar dose, frequência, via de uso, tempo de exposição, exames e objetivos reprodutivos.
Cannabis e fertilidade masculina: como a substância age no organismo?
A cannabis é derivada de plantas como Cannabis sativa e Cannabis indica. Além disso, seu principal componente psicoativo é o THC, associado a alterações de percepção sensorial, humor e coordenação motora.
THC e sistema endocanabinoide
O THC atua em receptores canabinoides, especialmente CB1 e CB2. Dessa forma, pode interferir em vias ligadas a dor, memória, movimento, energia e reprodução.
Receptores no esperma
Estudos demonstram a presença de receptores canabinoides nos espermatozoides. Portanto, existe plausibilidade biológica para efeitos diretos na função espermática.
Uso medicinal e recreativo
A cannabis pode aparecer em contexto medicinal ou recreativo. No entanto, os potenciais benefícios em algumas áreas não eliminam a necessidade de avaliar riscos reprodutivos.
Fertilidade é multifatorial
Mesmo quando um fator parece relevante, outros elementos também importam, como tabagismo, álcool, sono, peso, varicocele, doenças metabólicas e medicações.
Como a revisão avaliou cannabis e fertilidade masculina?
A revisão sistemática buscou estudos sobre cannabis e diferentes pontos da função reprodutiva masculina. Assim, os autores analisaram parâmetros seminais, hormônios, tamanho gonadal e função sexual.
Metodologia em linguagem simples
Os autores pesquisaram a literatura no PubMed/MEDLINE até maio de 2018. Além disso, incluíram estudos em humanos e animais com dados primários ou análises retrospectivas. Revisões, meta-análises e materiais não publicados foram excluídos.
Ao final, 48 estudos selecionados entraram na análise. No entanto, é importante lembrar que muitas evidências vieram de modelos animais, estudos in vitro e estudos observacionais. Portanto, os dados ajudam a levantar risco e plausibilidade, mas nem sempre provam causalidade direta em todos os homens.
Onde a evidência parece mais forte?
A revisão sugere que os efeitos mais consistentes da cannabis aparecem nos parâmetros do sêmen.
Em conjunto, os estudos associaram o uso de maconha a reduções de contagem e concentração de espermatozoides, alterações de morfologia, piora de motilidade, menor viabilidade e possível redução da capacidade de fertilização. Ainda assim, a intensidade do efeito pode variar conforme dose, frequência, tempo de uso, via de exposição e características individuais.
Cannabis e fertilidade masculina: efeitos no sêmen
Os parâmetros do sêmen representam a parte mais consistente da discussão. Além disso, eles costumam ser avaliados por espermograma, exame fundamental na investigação de infertilidade masculina.
Principais alterações seminais descritas
Contagem e concentração de espermatozoides
A revisão relata associação entre cannabis e menor contagem ou concentração espermática. Por exemplo, um estudo dinamarquês com 1.215 homens observou concentração 28% menor e contagem 29% menor entre homens que relataram uso de maconha mais de uma vez por semana, em comparação com homens que nunca usaram.
Morfologia espermática
Além disso, estudos em animais e humanos sugerem aumento de alterações morfológicas. Em um estudo com homens atendidos em clínicas de fertilidade no Reino Unido, o uso de cannabis nos 3 meses anteriores à coleta se associou a maior chance de morfologia alterada, especialmente em homens com menos de 30 anos.
Motilidade e energia celular
O conjunto de evidências mais amplo envolve motilidade. Estudos laboratoriais indicam que a ação em receptores CB1 pode reduzir a atividade mitocondrial dos espermatozoides. Consequentemente, a célula pode perder energia para se mover de forma adequada.
Viabilidade e capacidade de fertilização
Por fim, a revisão descreve possível impacto na viabilidade espermática, capacitação, reação acrossômica e ligação à zona pelúcida. Portanto, a cannabis pode afetar não apenas a quantidade, mas também a função dos espermatozoides.
Cannabis e fertilidade masculina: hormônios, testosterona, LH e FSH
A relação entre cannabis e hormônios reprodutivos é mais complexa. Portanto, é importante evitar frases absolutas como “maconha sempre reduz testosterona”.
FSH
Os estudos disponíveis encontraram pouco efeito consistente sobre FSH. Ainda assim, há limitações importantes, como amostras pequenas e diferenças entre frequência de uso.
LH
Nos modelos animal e humano, a cannabis aparece com associação mais consistente à redução de LH. Assim, pode haver interferência no eixo hipotálamo-hipófise-testículo.
Testosterona
Os dados são conflitantes. Alguns estudos animais sugerem queda, enquanto estudos humanos mostram resultados variados, ausentes ou até associados à recência de uso.
Interpretação clínica
Por isso, exames hormonais devem ser interpretados junto com sintomas, espermograma, histórico de uso, fertilidade, libido e função erétil.
Por que a testosterona não conta a história toda?
Mesmo quando a testosterona está normal, o paciente pode apresentar alterações no sêmen, queda de motilidade, piora de função erétil, baixa libido por outros motivos ou influência de fatores metabólicos e psicológicos. Além disso, estudos grandes sobre testosterona e cannabis ainda mostram resultados inconclusivos.
Dessa forma, o foco da avaliação não deve ser apenas “medir testosterona”. Na prática, a investigação pode incluir espermograma, hormônios, exame físico, avaliação de varicocele, hábitos de vida, medicações, sono, uso de álcool, tabaco e outras substâncias.
Tamanho testicular e espermatogênese
Cannabis e fertilidade masculina também entra na discussão sobre função testicular. Entretanto, essa parte da evidência ainda depende principalmente de modelos animais.
Estudos animais
Alguns estudos em camundongos, ratos e cães observaram alterações testiculares após exposição prolongada à cannabis ou derivados.
Túbulos seminíferos
Pesquisas descrevem possíveis danos em túbulos seminíferos, que são estruturas essenciais para a produção dos espermatozoides.
Estresse oxidativo
Além disso, os autores discutem a hipótese de que o estresse oxidativo participe de parte das alterações observadas.
Reversibilidade
Alguns modelos sugerem recuperação parcial ou completa após interrupção da exposição. No entanto, ainda faltam dados humanos robustos.
Cannabis e fertilidade masculina: libido, prazer sexual e ereção
Este ponto exige ainda mais cuidado, porque cannabis e sexualidade envolvem percepção subjetiva, contexto emocional, dose, frequência, relacionamento e saúde vascular.
Curto prazo e longo prazo podem ser diferentes
A revisão relata que a cannabis tem histórico de uso como afrodisíaco e que muitos usuários descrevem maior prazer sexual durante a intoxicação. Além disso, alguns estudos exploram efeitos em desejo sexual e resposta a estímulos eróticos.
Por outro lado, estudos em animais demonstraram redução de comportamento sexual após administração aguda ou crônica. Além disso, pesquisas clínicas também associaram uso frequente de maconha à disfunção erétil orgânica e a possíveis alterações endoteliais.
Em resumo, a literatura sugere um efeito paradoxal: a libido de curto prazo pode aumentar em alguns usuários, enquanto a capacidade de ereção e a função sexual masculina podem piorar, especialmente com uso crônico ou em indivíduos vulneráveis.
Cannabis e fertilidade masculina: limitações da evidência
Apesar dos sinais de alerta, a própria revisão destaca limitações importantes. Portanto, o tema deve ser tratado com prudência, sem alarmismo e sem banalização.
Muitos dados vêm de animais
Modelos animais ajudam a entender mecanismos, mas não reproduzem perfeitamente dose, frequência e comportamento humano.
Estudos in vitro têm limites
Quando espermatozoides são expostos a compostos em laboratório, o resultado pode não refletir completamente o ambiente do corpo humano.
Associação não prova causalidade
Usuários de cannabis podem diferir em tabagismo, álcool, sono, dieta, saúde mental e outros fatores. Assim, parte do efeito pode envolver confundidores.
Dose e reversibilidade ainda são dúvidas
A literatura ainda precisa definir melhor qual nível de uso prejudica fertilidade e quanto do efeito pode melhorar após interrupção.
O que fazer na prática se o casal está tentando engravidar?
Se o homem usa cannabis e o casal está tentando engravidar, a conversa com o urologista deve ser franca e sem julgamento. Além disso, pode ser útil revisar frequência de uso, outras substâncias, espermograma, tempo de tentativa, idade da parceira, histórico de infertilidade e fatores masculinos corrigíveis. Portanto, não suspenda medicações prescritas nem altere tratamentos por conta própria.
Fonte bibliográfica principal
Cannabis and Male Fertility: A Systematic Review. Kelly S. Payne, Daniel J. Mazur, James M. Hotaling, Alexander W. Pastuszak. Journal of Urology, Volume 202, Issue 4, October 2019, Pages 674–681. Acessar publicação.
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Perguntas frequentes sobre cannabis e fertilidade masculina
Maconha sempre causa infertilidade masculina?
Não. A literatura não permite afirmar que todo usuário ficará infértil. No entanto, estudos associam cannabis a alterações seminais importantes. Por isso, homens em investigação de infertilidade devem informar o uso ao médico.
Parar cannabis pode melhorar o espermograma?
Alguns dados sugerem possibilidade de melhora após interrupção, especialmente porque a produção de espermatozoides se renova ao longo do tempo. Ainda assim, a reversibilidade depende de fatores individuais e precisa de acompanhamento.
A cannabis medicinal também deve ser discutida?
Sim. Mesmo quando há indicação medicinal, homens em idade reprodutiva devem discutir riscos potenciais, dose, duração e alternativas com o médico prescritor e com o urologista.
A maconha reduz testosterona?
Os dados são inconclusivos. Portanto, a avaliação deve incluir sintomas, testosterona total e livre quando indicado, LH, FSH, prolactina, espermograma e contexto clínico.
A maconha pode afetar ereção?
Alguns estudos associam uso frequente a disfunção erétil e alterações vasculares. No entanto, a relação é complexa e também depende de fatores como ansiedade, tabagismo, saúde cardiovascular e frequência de uso.
Fertilidade masculina precisa de avaliação completa e sem julgamento.
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Este conteúdo é informativo e não substitui uma consulta médica individualizada. Portanto, qualquer orientação sobre cannabis medicinal, fertilidade, saúde sexual ou tratamento deve considerar avaliação médica, exames e contexto individual.
2 respostas
Muito esclarecedor. Tenho 36 anos, usuário de maconha crônico a pelo menos 15 anos.
Eu e minha esposa estamos tentando engravidar e ainda não conseguimos.
Meu espermograma teve um péssimo resultado e após ler essa matéria, só reforça a necessidade de mudanças de maus hábitos para bons hábitos. Já estou sem consumir maconha a 20 dias, aos finais de semana sinto muita falta, mas sigo firme em busca da gravidez!!! Sem sacrifício, não há vitória!
Tmj! Sou usuário frequente há 15 anos e estou com o mesmo objetivo seu. Foco, determinação e sabedoria pra alcançarmos nosso sonho. Fé que vai dar certo pra nós 2! 🙌